
Pelo menos é assim que a maioria das pessoas me conhece. Meu nome completo é Ricardo Lebre e, mesmo tendo nascido no Brasil, tenho só um “nome” e um “sobrenome”, diferente da maioria das pessoas na América do Sul. Lebre é aquele coelho maior — e foi por isso que adotei o bichinho como a minha marca pessoal.
Eu sou o geek clássico: muito artístico na escola, viciado em filmes de ficção científica e early adopter de qualquer gadget eletrônico. Mas ser um geek de classe média no Brasil dos anos 80 era um desafio. Tecnologia, quando existia, era cara demais. E foi justamente aí que eu precisei ser mais criativo: usava as habilidades que tinha pra fazer as coisas acontecerem, especialmente de formas pouco ortodoxas.
Foi em meados dos anos 90 que aprendi o termo “hacker”, graças ao filme de mesmo nome com Jonny Lee Miller e Angelina Jolie. Eu era adolescente e achava o máximo quebrar algumas regras. Foi mais ou menos quando a internet se popularizou e veio aquele boom hacker no cinema, com Johnny Mnemonic, A Rede e Matrix. Demorou um tempo pro mundo (e pra mim) entender que hacker não é o cara irresponsável quebrando códigos no computador durante a madrugada.
Hoje a gente usa a palavra “hack” pra descrever qualquer solução esperta pra um problema real, e “hacker” é como chamamos quem pensa fora da caixa. Existe uma variedade enorme de tipos de hacker — o food hacker, o travel hacker, o bio hacker, o computer hacker — além de nomes ligados à cultura hacker, como maker e tinker. Hoje é bem seguro (e até legal) dizer que eu me considero um hacker, ou um maker. Tem gente que me pergunta: “Mas o que você faz?” e eu sempre respondo: “Qualquer coisa que eu precise!”. Eu detesto quando usam a palavra “impossível” — hoje nada é impossível: ou demora mais do que você queria, ou custa mais do que você está disposto a pagar.
Nos anos 2000, virei adulto oficialmente! Entrei na faculdade, comprei meu primeiro carro, comecei a trabalhar e votei pela primeira vez. Em 2006 corri meu primeiro risco ao escolher ser empreendedor: ao me formar, em vez de procurar um emprego tradicional, fui trabalhar como freelancer. O sucesso veio logo em seguida — abri um estúdio de design com dois sócios.
Essa empreitada durou três anos. Depois, atendi algumas agências de publicidade em São Paulo, mas o empreendedor dentro de mim me colocou de volta no jogo com a minha segunda empresa: a EletriQ. Por quase três anos, apliquei todo o conhecimento geek-hacker-maker que tinha acumulado em design, arte e publicidade — inclusive comprando componentes eletrônicos e fuçando em casa, soldando e remontando as coisas só pra entender como funcionavam. Eu sempre quis construir uma ponte entre o mundo digital e o físico, e foi através do hardware, aprendendo a programar sensores e microcontroladores, que finalmente peguei gosto pelo código. Foi também na EletriQ que criei um serviço de sucesso, o Festagram. Os dois seguem firmes, mas saí da empresa quando me mudei para os Estados Unidos — não seria justo continuar como COO e sócio sem estar presente em tempo integral.
Morar quase dois anos nos Estados Unidos, dentro do ecossistema do MIT, me aproximou ainda mais das tecnologias emergentes. Falava-se muito de realidade virtual e aumentada, eu mergulhava em renderização em tempo real, GPUs… e mal sabia eu que, muito em breve, o mundo inteiro mudaria por causa da IA generativa.
De volta àquele instinto de misturar código com a vontade de facilitar o meu próprio dia a dia, comecei a automatizar processos repetitivos. Os problemas que mais me incomodavam na publicidade eram sempre do mesmo tipo: tarefas manuais e braçais, que comiam as horas que deveriam ser dedicadas às ideias. Então passei a misturar automação e visão computacional pra tirar esse trabalho da frente. O que começou como um jeito de economizar o meu tempo virou um serviço — o CaaS (Creative-as-a-Service), a primeira oferta do meu estúdio, o Exploratório.
Quando a IA generativa chegou de vez, foi como se alguém tivesse me entregado uma caixa de ferramentas muito maior pro mesmo instinto de sempre: achar jeitos engenhosos e escaláveis de resolver problemas reais. O curioso é que, assim que a IA passou a entender linguagem natural, aquele código que eu tinha acabado de aprender a amar virou quase opcional. É isso que eu faço hoje — ajudo empresas a usar IA não onde ela parece mais impressionante, mas onde ela realmente move o ponteiro.
Acredito que IA sem talento humano é só automação, e talento sem IA é só esforço. Meu trabalho está no encontro dos dois.